Os homens passam, os textos ficam

Texto produzido para o caderno Outra Pauta, por Robersom Lima. O objetivo era escrever após observação de um personagem anônimo.

 

Já dizia Pilatos: “Eu não fui”

CONHAQUE E FRALDAS

 

Roberson Lima 

 

Quando recebemos a missão da semana achei que finalmente colocaria meus dotes de espionagem em prática. Além das técnicas do Bond, eu também tinha um pouco dos ensinamentos do velho Holmes na bagagem. Isso porque dessa vez a missão era secreta: consistia em observar uma pessoa que não conhecemos.

A operação “Zóio Grande” teve início na quinta-feira, no centro da cidade, na região da antiga rodoviária. Mais precisamente ali pelas bandas da Rio Grande do Sul, ali fica minha casa. A pessoa que eu não conheço trabalha ali em frente.

De estatura mediana, cerca de 1,65m, morena, na casa dos 30 anos. Devido aos corriqueiros desjejuns regados unicamente a conhaque barato em copos plásticos (de fácil transporte), adquiriu uma forma decadente. Triste e decadente. Idêntica ao sistema.

Decadência Literal, do físico, do homem, do conceito. Decadência que nós vizinhos, diga-se de passagem, fazemos questão de não enxergar. Inclua-me na lista de negligentes: é mais cômodo ligar o carro, levantar o vidro e ir embora.

A barriga gestante exposta, mesmo num clima frio, é o que mais marca a observação. Está grávida pela quarta vez, segundo os que a conhecem. O primeiro trago, ainda dentro do bar, é uma cena chocante: são oito horas da manhã.

Realmente, Bond e Holmes me seriam inúteis. Confesso, que depois de alguns dias de observação, percebi que a única referência cinematográfica ou literária que poderia usar no tema, era o foco principal do último texto. “A Doutrina Coringueana”.

Explico:

A justiça determinou o retorno dos dois irmãos ao “lar”. Isso depois de fugas, várias denúncias e boletins de ocorrência registrados por maus tratos e espancamentos. Eles foram assassinados, queimados e esquartejados pelos pais nesse mesmo “lar”. Ariel Castro, presidente do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente falou em defesa da conselheira tutelar do município de Ribeirão Pires – SP. Alega que o caso dos meninos não era de relevância criminal, que “Não se pode colocar crianças no abrigo toda vez que saírem de casa”.

Relevância criminal? Será que espancamentos freqüentes se enquadra na galeria de “carinhos” pra esse cidadão?!

Detalhe - o último pedido de socorro protocolado formalmente pelas crianças foi feito dois dias antes de serem brutalmente assassinadas.

Tudo isso é natural, afirmam as autoridades. Então percebi que o fato da minha personagem, se prostituir em pleno ápice de gestação, ser viciada em drogas e álcool, não produziria o impacto desejado. Afinal, a situação não é tão grave assim.

Lembro-me do que seria o ideal para o momento “mãe” que está passando. A gestação dita hábitos e exige uma dieta especial, com proteínas, vegetais, derivados de leite, entre outros. Esse é um conjunto essencial não só para o bebê, mas também para a própria gestante.

Talvez a bebida espante o frio, encoraje a batalha diária, disfarce a fome. Enfim, são tantos os motivos “plausíveis” para sua atitude, que não vem ao caso começar uma ladainha baseada na revolta social. Fica complicado tentar achar uma justificativa para o constante entorpecimento da pobre diaba.

Deu pena do organismo do futuro mancebo.

Há quase três décadas João Paulo II entoava suaves palavras dizendo que desde a concepção o homem já é amado por Deus. Já a atual crítica relaciona métodos contraceptivos a pecados mortais... Enfim, deixando o combate entre o sagrado e o profano à parte, daremos seqüência ao dia da “amazona” da selva de pedra cascavelense. Dia que não se diferenciaria dos que viriam a seguir. Só muda o clima: sol ou chuva, quente ou frio, fresco ou abafado, fora isso, os dias são iguais. Subidas e descidas a pé, quadra abaixo, quadra acima, “negócios rápidos”. A embriaguês sempre presente. Os obstetras e pediatra receitam repouso e tranqüilidade para as suas pacientes.

Paciência. Em meio às luzes tremulantes do giroflex do carro da polícia, em meio à abordagens, brigas e agressões. Ela vai sobrevivendo, acumulando energias nos momentos em que perde todos os sentidos, numa espécie de coma e gastando as migalhas de energia na própria respiração.

O bebê?

Esse é amado por Deus desde a sua geração. O resto é por sua conta.

No último dia de “observação” lá pelas 16 horas, a imagem deprimente se acentua. Ela está sentada no meio fio, num semicoma alcoólico. A avantajada barriga é comprimida contra o concreto. Olham vendedores, passam alunos com mochilas. Gente para todo  lado. Todos hipnotizados, programados para não ver tal declínio. Juntamente comigo, provavelmente em dias anteriores passaria ao seu lado desviando o olhar ou falando ao telefone.

Vergonha. Tentei amenizar a minha culpa. Pedi ao dono do bar que ligasse para o socorro. De repente uma dose de glicose ajustasse suas juntas e ossos.

Mas nada de glicose, fiquei sabendo que era de praxe a cena. Ela sempre caía, desmaiava, às vezes levantava logo, às vezes não. Mas o certo é que sempre voltava.

Com minha observação, concluí que realmente a política do “trágico e cômico” disseminada pelo Coringa não abastece somente as políticas públicas, mas também a mente das pessoas, sejam elas as vítimas ou não, sejam elas os espectadores ou não.

O “voyeurismo técnico” realmente não é minha praia. Estou muito mais pra narrador de historias da “cruz Vermelha” do que um espião discípulo de Bourne.

Para finalizar, vamos achar um culpado é claro:

As ações Sociais? Realmente, falta preparo, qualidade, logística, enfim, é um dos culpados.

Eu?! Não devo nada. Nem aqui estava no dia.

A mãe? Talvez. Deve-se lembrar que existem muitos programas de saúde e apoio gratuitos que não são utilizados pela população. Talvez seja o seu caso. Talvez... talvez... (é, duas vezes mesmo, pra reforçar a dúvida).

O povo? Bom, esse leva a culpa faz tempo.

Uma coisa é certa. O único que se safa disso tudo é o pobre coitado que está por vir. Esse sim, realmente entrou de gaiato no navio, como já dizia a música do Paralamas.

Fica então o desejo de sorte para o pequeno. Se passar pelo primeiro obstáculo de nascer, tomara que os ventos o empurrem pra longe dali, afinal, não sobrará muito amor materno para lhe servir de base e acalanto. Um futuro filho do caos? Todos somos filhos do caos. O porém, é que alguns nascem do lado de fora do prédio. E lá fora, onde falta nana-nenê, a vida é ainda mais complicada.

 


Escrito por Mariana Lioto às 22h19
[] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]