Martele

José, cidadão do país imaginário, era um homem comum como todos os outros: a mesma rotina cotidiana o dominava, o mesmo rosto trabalhador possuía, os mesmos anceios de melhora sonhava. José passava o dia ocupado no trabalho, em tarefas repetitivas e cronometradas e durante esse período ele fazia o que mais gostava, ele pensava.
Mas José não foi sempre assim, por muito tempo ele sentiu sua vida vazia, buscava nos fins de semana preenchê-la com a atenção dos filhos, casa de parentes ou com a televisão, mas no outro dia às oito horas na linha de produção o excluíam do mundo, afastavam-no da realidade, as coisas aconteciam quando José martelava.
Até que José percebeu que o cérebro, assim como o restante do corpo, atrofiava-se, e que o exercício diário da reflexão evitava isso. José descobriu o pensar. Processava as informações, analisava os fatos e se sentia cada vez mais um completo cidadão.
...Foi quando se aproximou mais um período eleitoral, e José via os candidatos e pensava. Via a falta de propostas e pensava. Via a montoeira de propagandas poluindo as ruas e pensava.
Próximo às eleições, sua revolta não cabia mais dentro dele, e ele chegou a conclusão que ele, José Pereira, era um homem que não precisava de governo. José sabia suas obrigações, sabia o papel de cada um na sociedade, sabia o porquê que pagava seus impostos e sabia que não tinha resultado suficiente em troca.
No mês de outubro, milhões de Josés do país imaginários foram as urnas. Todos eles com um novo conceito, originado quando todos eles descobriram em si mesmos o poder do pensamento, que revela muito mais que o martelar: revela a razão de ser das coisas.
O novo conceito foi traduzido em votos brancos, os Josés transformaram sua revolta na ausência de escolhas, e, é lógico, a partir daquele dia o país imaginário jamais foi o mesmo. José ajudou a transformar o “ser governado” no pleno exercício da liberdade... Quem dirá que isso não é cidadania?


Escrito por Mariana às 11h38
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